Ir ao conteúdo

Caminhos

          A trama dessa história é real, tão real quanto podem ser tramas tecidas há mais de cem anos por tantas diferentes mãos a unir tantos diferentes pontos.  As histórias da vida de qualquer pessoa poderiam ser descritas em livros, livros estes que certamente seriam mais interessantes que a mais criativa das ficções.  Histórias com maior ou menor dramaticidade, sofrimento, superação, histórias engraçadas, histórias de heroísmos, perversões, de altruísmos ou barbáries, apimentadas ou completamente planas. Não há história que não seja única e que não valha a pena. O destino vai compondo nossa existência em um tecido complexo, repleto de detalhes, coincidências e infinito em possibilidades alternativas. Um tecido que sempre poderia, por qualquer pequeno detalhe, nunca ter sido.

*

          Começo o recorte dessa história pelo meu bisavô Alfredo, nos primeiros anos da década de 1920.   Alfredo foi próspero comerciante em Datas, cidadezinha garimpeira localizada nas profundezas do espinhaço mineiro.  Não o conheci, mas nesse exato momento posso vê-lo de pé na porta de sua loja, localizada ao lado de sua casa, na praça da igreja. Não o conheci, mas posso sentir o vazio em seu olhar distante, a refletir sobre a angústia que lhe aperta o peito e lhe amarrota a alma.  Alfredo acaba de perder a esposa, Maria da Ascensão, após lenta agonia, para “aquela doença”.  Aquela, você sabe.  Aquela que mata em vida, que traz a dor total, que não escolhe a quem.  Aquela imune a rezas, súplicas, novenas e promessas.  Aquela que não se pode nomear, sob pena de fazer lembrar a Deus que você também está ali, disponível.  Crendices, essas e aquelas.  

Alfredo, sozinho, na porta da loja.  Como fazer para cuidar dos frágeis filhos ficados órfãos? Maria, Otília, Carlota, Lourdes, Alice, Zenília, Álvaro, Pedro, Celso, tantos destinos a serem costurados, tantos remendos a serem feitos em histórias rasgadas pelas mãos de quem (im)piedosamente traça os desígnios.  

*

          A dor das famílias, vista de longe, parece igual. De perto, é cheia de detalhes que formam uma mistura única.  Não lembra um tecido uniforme, parece-se mais com uma colcha de retalhos.  Na família do Sr. Alfredo, cada filho borda a colcha com as cores e as formas de suas dores. Dores pálidas, vibrantes, escondidas, gritadas, resignadas ou desesperadas.  A dor é coletiva; o sofrer é individual.  São costurados, lado a lado, pedaços de pranto ao lado de silêncios.  Retalhos de rezas ao lado de imprecações.  Dor física é bordada sobre dor na alma.  Angústia sobre incerteza.  Medo sobre desesperança.  Sobre a fé, raiva e culpa.  

          São muitas histórias alinhavadas juntas, emboladas, fios emaranhados em um único novelo, que ao longo do tempo vão se separando e compondo outras tantas diferentes tramas.    Sigo o fio que tece a história de Lourdes, minha avó. 

          Morta a Maria da Ascensão, nascem as Dindinhas.  Dindinhas são personagens comuns em quase todas as famílias do interior de Minas, sem que se saiba ao certo de onde vêm, quando chegam e por que acabam ficando.  Solteiras convictas, moças-velhas, beatas fundamentalistas.  Na ausência do pai ou da mãe, tornam-se guardiãs da moral e dos destinos das famílias.  Eminências pardas plenas de poder e carentes de carinhos. 

          No meio de toda essa tristeza, de toda ausência, de toda angústia, Lourdes adoentou.  Empalideceu, emagreceu, quebrantou-se.

          Tivessem as teorias de Freud já ecoado nesses fins-de-mundo, o leque de possibilidades diagnósticas seria muito mais amplo e colorido.  Na ausência daquelas, provavelmente terá tido clorose, melancolia, definhamento, neurastenia.  Ou lhe terá virado-o-vento, ou caída a espinhela.  Se o diagnóstico é múltiplo, o local de tratamento é único. Lourdes foi levada para Diamantina, única cidade da região onde havia médicos e hospitais.  Hospedada em casa de amigos do pai, localizada na rua Campos Carvalho, passava os dias entre repouso e tônicos, dietas e infusões, consultas e exames, sempre sob o olhar vigilante da Dindinha.  Uma melancolia preenchia o baú de emoções trazido de sua casa em Datas, sem deixar espaço para alegrias, diversões ou sonhos.  Os dias seguiam iguais, tristes e infinitos.  Tinha saudade dos irmãos em Datas, do cheiro de sua gente e da proximidade da mãe, que ali, naquela casa tão grande e tão fria, não habitava.  

          Um dia, sem que se saiba o porquê, veio-lhe uma curiosidade de ver a rua, de ver o mundo.  Ainda que o mundo fosse apenas a rua em frente à sacada da casa na cidade que não era sua.  E foi assim, vestida com a mais pálida das tristezas que Lourdes, aproveitando um descuido da Dindinha, se encaminhou para a sacada que se abre para a capistrana, como é conhecido esse trecho de rua em Diamantina.  As ruas eram, naquele tempo, feitas de pedras arredondadas, um tipo de calçamento conhecido como “pé de moleque”.  A faixa central ainda hoje é revestida por pedras maiores, quadradas ou retangulares, formando uma passarela plana, único lugar por onde é possível caminhar.   Essa passarela de pedras é chamada de capistrana.  Nos finais de tarde, depois da missa na catedral, as moças passeavam pela capistrana, enquanto os rapazes as olhavam, encostados nas paredes das casas nas laterais, ou em portas de bares.  Flertavam.  É assim que olhares se encontravam, que mãos suavam frio, que corações aceleravam.  Aproximação e conversa eram completamente impensáveis. 

Lourdes chega à sacada com o mesmo olhar distante e pálido como o qual o seu pai, no início dessa história, olhava o mundo na porta da loja de tecidos.  Lourdes olha o mundo lá fora, tentando enxergar sentido no mundo de dentro. Olha sem olhar, pensa sem pensar, absolutamente alheia ao balé inocente e sensual que se desfila na rua à sua frente.  Só quer ter força pra chorar.

*

Meu avô, Orlandim.  

          Filho do Sr. Pietro Orlando, ou “Pedro Italiano” e D. Alice.  Seu pai havia emigrado aos 34 anos, deixando a família na região de Piemonte, na Itália.  Veio em busca de uma vida com menos carências, menos sofrimento, mais oportunidades.  Passou pelo Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Santa Bárbara, onde conheceu a sua esposa trabalhando em uma fábrica de tecidos, e finalmente chegou a Diamantina.  Dizer que o Sr. Pietro emigrou talvez seja um eufemismo.  A família passava fome, a grande fome que assolava parte da Europa no final do século XIX. Tinham uma única vaca, que foi vendida para que se conseguisse o dinheiro da passagem para o Brasil.  O sofrer torna a matemática crua. Uma vaca a menos no pasto vale uma boca a menos para alimentar em casa.  A fome embrutece. Mas esses são outros panos para outras mangas, diversas.  Voltemos.

          Orlandim estava de pé, na porta da Joalheria Pádua _ a mais antiga joalheria do Brasil ainda em atividade, diga-se de passagem _ onde havia começado a trabalhar para aprender a arte da ourivesaria. O olhar arguto, moldado no contato com o diamante, lhe permitia reconhecer as gemas mais raras, mesmo aquelas que, ainda pedras brutas, traziam dentro delas o potencial do mais puro brilhante.

        Orlandim estava de pé, na porta da Joalheria Pádua.  Absolutamente alheio ao balé inocente e sensual que se desfilava à sua frente.  O acaso é capaz de tecer certo com agulhas tortas.  Orlandim olhava para dentro, tentando enxergar sentido no mundo de fora.  Olhando, viu.  Ali, a poucos metros, na sacada da casa em frente, uma moça de pé, um olhar distante e pálido, o olhar pálido mais brilhante que ele já vira.  Dois olhos azuis que desafiavam o azul do céu de maio, do céu mais lindo do mês mais lindo da cidade mais linda.  Quem era aquela moça, tão linda? Tão linda e com um olhar tão triste?

Procurou saber.  Chamava-se Lourdes, era filha do Sr. Alfredo, um comerciante da cidade de Datas.  Tinha vindo para Diamantina para tratar da saúde, mas em poucos dias faria a viagem de volta.  

          Se o acaso fosse afeito a poesia, teria tecido essa parte da história em ponto de cruz. Mas nunca saberemos se de fato os olhares se cruzaram. Certo é que Orlandim sentiu que as mãos suavam frio e o coração acelerava.  Seus olhos treinados nunca se enganavam, aquela gema opaca seria o brilhante que ele iria cravejar na sua aliança com o destino.  Só não sabia como.

***

          Orlandim está agora pelos altos da Perpétua, pedalando uma bicicleta que tomou emprestada a um amigo, pela estreita e esburacada estradinha de terra, em direção à cidade de Datas. Enquanto pedala, relembra o diálogo que já ensaiou mil vezes. Como vai se dirigir ao Sr. Alfredo?  O que vai dizer? Onde vai colocar as mãos? Tudo parece devidamente organizado, simétrico, alinhado e resolvido.

Quem vê um tecido assim, tão certinho, não imagina como é o avesso.  Confuso, emendado, tortuoso.  Irreconhecível.  O lado avesso é a parte que tem de existir, desprezada e invisível, para que a beleza do lado direito possa ser apreciada.  É a sustentação, o arcabouço.  É o que possibilita, anonimamente, o lado direito. Inseparáveis.

          No avesso dessa história, desde o dia em que Orlandim viu Lourdes na sacada em frente à joalheria, passaram-se oito meses! O que aconteceu nesse tempo, jamais saberemos. Só é possível especular:  que tenha trabalhado dobrado, para conseguir comprar um terno novo, com o qual pretende se apresentar.  Que tenha tentado juntar algum dinheiro, para alugar uma casinha onde possam morar.  Ou mesmo que tenha, através de algum conhecido comum, avisar ao pretenso futuro sogro de suas intenções, sondar as possibilidades, traçar a melhor forma de realizar seu sonho.  Arranjos improvisados, ajeitados, desorganizados.  Avessos.

          São três horas da tarde.  O Sr. Alfredo, como sempre, está em pé, na porta da loja de tecidos.  A rua ainda molhada pela chuva recente, os vira-latas a correr pela praça, os canarinhos se banhando nas poças que se formam entre as pedras do calçamento.  Um dia comum, um dia único.  Orlandim se dirige à loja, banho tomado, roupa trocada, terno novo.  As mãos trêmulas, os passos firmes.  Apresenta-se, Sou Orlandim, filho de Pedro Italiano e D. Alice, de Diamantina.  Conversam sobre nadas, ignorando estarem diante da perspectiva de tudo.  Quando fala sobre o motivo da sua presença ali, a reação do Alfredo é plácida e cordial.  O que nos leva à certeza de que, de alguma forma, já fora avisado sobre o que estava acontecendo, e concordava. Concordando, mandou recado à Dinhinha, na casa ao lado da loja.  Um moço chamado Orlandim, vindo de Diamantina, tinha sua autorização para conversar com Lourdes, se fosse da vontade dela.  O que nos leva à certeza de que, de alguma forma, Lourdes já fora avisada sobre o que iria acontecer, e esperava. 

          Na sala da casa, cujas janelas se abrem para a praça, três irmãs estão sentadas, tecendo.  Já terminaram os afazeres na cozinha e agora é hora de aprender e praticar outras tantas artes que tornam as mulheres, nesse início de século, nesse fim de mundo, prendadas candidatas a um bom casamento.  Alice, Lourdes, Otília. Tecendo, bordando, costurando, sonhando.  Lourdes tece um caminho de mesa, sem imaginar que o seu próprio caminho está sendo tecido. Nas suas mãos, fios de linhas coloridas dão forma à peça.  Nas mãos do destino, ela é o fio de um tecido que está quase terminado.  Orlandim se aproxima da janela, tira o chapéu, espera ser notado. As três filhas do Sr. Alfredo não levantam os olhos, pelo menos não de forma perceptível.  Mas de alguma forma sabem, todas, que algo especial está acontecendo. A Dindinha, com sua vigilância canina, se aproxima, Boa tarde.  

_ Boa tarde, poderia me trazer um copo de água, por favor?

          A Dindinha é toda discrição e desconfiança. Chama as meninas, Vamos lá pra cozinha.  Orlandim espera, os minutos se arrastam, as mãos se inquietam, o silêncio sufoca.

          Então aparece uma moça, tímida, face corada pelo pudor e vergonha, coração aos pulos, não acreditando no que estava acontecendo, tudo tão inesperado. Alice trazia numa xícara de porcelana, água fresca.  Ela se dirige à janela, entrega a água ao moço bonito que esperava do lado de fora, abaixa os olhos ansiosos e confusos. 

          Foi dado um ponto totalmente fora do desenho original. A Dindinha, senhora dos destinos, não concorda que seja Lourdes a escolhida, conforme anunciara o Sr. Alfredo.  Alice é mais velha, tem primazia.

O universo para.  No momento do último ponto, do arremate, do nó que finalizará esse enredo, uma ponta de fio fica solta.  Se puxada, em segundos será desmanchado tudo o que foi tão detalhadamente tecido, a vida seguirá no sentido reverso.

          Orlandim não entende  o que está acontecendo.  Afinal, tinha deixado claro para o Sr. Alfredo o que o trouxe até aqui, até esse exato momento.  Seu cavalheirismo se confronta com seu sonho. Desobedecer a decisão da Dindinha, desapontar a menina Alice, seria visto como afronta, grosseria? Sua boca está seca, seus olhos queimam. 

A Dindinha aparece.

_ Sua água, moço.

_ Senhora, essa minha sede, só Lourdes é capaz de aplacar.

*

          Lourdes, que observa a cena com angústia, corre para a cozinha e pega um copo de água, que serve em um belo copo de prata, relíquia da família há gerações.  Orlandim sorri e agradece, encantado.  Seus olhos são lindos, diz.

          O ponto final foi firmemente atado.  O universo retoma seu movimento, a vida segue seu curso. 

*************************************

          Passados quase 80 anos desde aquela tarde chuvosa em Datas, minha Vó Lourdes me chamou à casa dela.  Infinitas histórias foram escritas desde o dia em que ela e meu avô Orlandim souberam que viveriam juntos para sempre. Já viúva, tendo perdido dois dos seis filhos, a maioria dos irmãos e um outro tanto de outros familiares e amigos _ afinal, viver é também colecionar perdas _ continuava com a mesma firmeza, lucidez e o mesmo brilho no olhar daquele dia em que desafiou o destino e assumiu o protagonismo de sua própria história. 

          Entregou-me uma cartinha. Entregou-me uma caixa com um pequeno presente. Um dos momentos mais emocionantes da minha vida. Afinal, viver é também colecionar emoções.

Para quem não entendeu a letra trêmula de minha avó:  

“Muito querido neto

Com todo carinho e amor achei que você merecia ser o herdeiro deste copo, de uma lenda do meu namoro com Orlandim é uma lembrança do passado foi o pedido dele de arranjar um copo com água para conseguir me ver de perto recebi tantos castigos de ter dado a ele a água.  É uma lembrança da sua vovó que tem recebido muitos cuidados e carinhos da sua parte que Deus lhe pague esteja sempre protegendo na sua função de médico.  É uma lembrança da sua vovó muito agradecida por tudo que tem me feito.  Desculpe-me a letra as mãos estão trêmulas para escrever.  Beijos de sua vovó muito agradecida.  

Lourdes Orlando, janeiro 988” (obs:  o ano na verdade foi 1998)

Publicado emSem categoria

Seja o primeiro a comentar

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *