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Fé cega, faca amolada

“Em 1914, durante a Primeira Guerra Mundial, na semana que antecedeu o Natal, soldados alemães e britânicos trocaram saudações festivas e canções entre suas trincheiras; na ocasião, a tensão foi reduzida a ponto dos indivíduos entregarem presentes a seus inimigos. Na véspera de Natal e no Dia de Natal, muitos soldados de ambos os lados – bem como, unidades francesas ainda que em menor número – se aventuraram na “terra de ninguém”, onde se encontraram, trocaram alimentos e presentes, e entoaram cantos natalinos ao longo de diversos encontros. As tropas de ambos os lados também foram amigáveis o suficiente para jogarem partidas de futebol” (Wikipedia)

Fé e ciência: oponentes que historicamente não se bicam. Quando a medicina começou a reivindicar para si a explicação sobre a origem das doenças e, muito mais “grave”, o poder de cura – antes atribuição divina exclusiva – esta relação azedou de vez. São inúmeras as histórias de cientistas e “bruxos” condenados à fogueira por questionar os dogmas da igreja. Apostasia imperdoável. Darwin veio jogar uma pá de cal na possibilidade de harmonia. Como assim? Evolução??

Navegando por períodos de maior e menor incompatibilidade, chegamos aos dias de hoje, de aumento de polarização e radicalização. Vivemos o absurdo de ver divergências políticas encampando estas diferenças. Vacinas x cloroquina. Ciência x fé.

Nem tudo é divergência, felizmente. Quando fé e ciência se permitem momentos de união, o resultado pode ser muito interessante e eu diria até divertido. Houve uma situação em minha trajetória médica em que a fé e a ciência não só conviveram, como atuaram com sinérgica harmonia em prol de um mesmo objetivo. Sucesso absoluto.

Isso foi mais ou menos em 1994. Não me lembro da data com precisão. Naquele tempo, os plantões de urgência e emergência eram alternados entre a Santa Casa de Caridade (dias ímpares) e o Hospital Nossa Senhora da Saúde (dias pares). Eu estava no Hospital, em um plantão de 24h. Hoje, pensando em como eram nossas condições de trabalho, sinto como se trabalhássemos na Idade Média. Não tenho aqui nenhuma intenção de desprestigiar ou fazer uma crítica vazia; pelo contrário, atuávamos com recursos infinitamente mais limitados e mesmo assim conseguimos grandes resultados. Não havia plantão de especialidades, sequer como sobreaviso. Apenas a cirurgia geral era eventualmente chamada. Não havia tomografia computadorizada, hemodinâmica, Unidade da Hemominas. Não havia CTI. Algumas vezes não havia sequer um eletrocardiógrafo disponível; desfibrilador era sonho e trombolítico era delírio.

Por volta de 01:00 da madrugada, fui chamado para atender um paciente com dor no peito. Estavam no consultório o paciente (um diácono), um seminarista e o arcebispo (não me lembro do nome). Dor anginosa típica, sudorese, mal estar, náusea. Tinha histórico de cirurgia de revascularização prévia (ponte de safena). O diagnóstico de infarto agudo do miocárdio já veio pronto pela história e se confirmou pelo eletrocardiograma. Uma vez estabilizado, coloquei o paciente em um quarto onde aguardaria a transferência para Belo Horizonte na manhã seguinte. O bispo e o seminarista ficaram como acompanhantes. Orientei que me chamassem em caso de qualquer alteração e fui tentar descansar. Depois de cerca de uma hora, um enfermeiro de chama: – O padre está passando mal!!

Corri ao quarto e constatei que o paciente sofrera uma parada cardíaca. – Ele está morrendo?, perguntou o bispo. – Ele já morreu, lhe respondi. Vamos tentar trazê-lo de volta! A partir daí tudo transcorreu de forma muito rápida. Aqui narrada, parecerá lenta.

Eu: – Vamos começar a massagem cardíaca! Crec… crec… (nunca me esqueci do som e da sensação de costelas sendo quebradas ao se massagear um tórax muito rígido…)

Bispo: – Oremos ao Senhor pelo nosso irmão doente e por todos os que tratam dele…

Seminarista: – Ouvi-nos, Senhor!

Eu: – Preparemos o desfibrilador…

Bispo (dirigindo-se ao seminarista): – me passa a água benta!

Eu (dirigindo-me ao enfermeiro): – me passa o gel para o desfibrilador

Bispo: (se aproxima para o ritual da Unção)

Eu: – Todos se afastem, por favor!!

3…2…1… ZAP!!!!! (…) sem sucesso

Eu: (checando os pulsos): – Vamos continuar com a massagem e ventilação! Com licença, Bispo! (Ele estava ungindo o diácono e eu precisava retomar a massagem…)

Bispo: – Infundi novo vigor nos seus membros. Suavizai as suas dores. Dignai-Vos libertá-lo do pecado e de todas as tentações.”

Eu: – Faz uma ampola de adrenalina!

Bispo: – Me passa os “santos óleos”! Com licença, Doutor! (Eu estava obstruindo o acesso do Bispo ao paciente…)

Eu: Todos se afastem!

Bispo (impondo as mãos sobre o paciente, em silêncio)

3…2…1… ZAP!!!

O corpo do diácono se contraiu e em seguida ele abriu os olhos com um meio sorriso…

Diácono: – Uai… eu dei uma cochilada?

Eu: – O senhor dormiu um sono profundo…

Diácono: – Dr. Eduardo: se eu morrer, por favor não permita que me façam massagem ou me deem “aqueles choques no coração”… Eu via isso em pacientes ao meu lado, quando estava no CTI… achei muito agressivo. Não quero que façam em mim.

Eu: (silêncio)…

Meses depois recebi em meu consultório um presente do diácono. Era um livro escrito por ele, onde contava histórias do pai, que fora tropeiro na região de Diamantina. Fez uma dedicatória emocionante: “Ao Dr. Eduardo, que na noite de………, me tirou das garras da morte”. Quando conto essa história, sempre me perguntam: – Quem salvou o paciente? E eu respondo: – A ciência, sem dúvida! Graças a Deus!!

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