De acordo com a tradição cristã, no segundo dia da criação, depois de já ter feito o dia e a noite, Deus criou o céu. Nesse mesmo dia, surgiram os anjos. Um deles, que impressionava por sua beleza, era Lúcifer… Um dia, Lúcifer acordou “se achando”. Fez uma selfie, usou alguns filtros do Instagram e gostou do que viu. Pensou: “Por que não?”. Orgulhoso, ele postou a foto e decidiu que queria ter mais “likes” do que Deus. Por seu orgulho, foi expulso do paraíso.
Lúcifer foi condenado ao castigo eterno. Como a eternidade é entediante, resolveu se distrair lendo uns livros de autoajuda. Contratou um coach e descobriu que podia fazer do seu limão uma limonada. Genial, disse o coach. Chocando o orgulho, Lúcifer criou a vaidade, a arrogância, a ostentação, a soberba, a futilidade, o egoísmo e bombou as redes sociais. Se ele se arrependeu de sua soberba, nunca saberemos. Mas sabemos que aprendeu, e muito bem, a utilizar o orgulho como forma de seduzir os homens.
Antes de contar o meu tombo, vejam a história de Antão.
Era o ano de 356. Antão, nascido no Egito, era um cristão fervoroso. Por volta dos vinte anos de idade decidiu levar uma vida de sacrifícios e dedicação a Deus. Desfez-se de todos os seus bens e passou a viver no deserto, se alimentando de gafanhotos e mel, morando em cavernas, jejuando e orando. Em suas peregrinações pelo deserto, afirmava encontrar e conversar com centauro e um sátiro. Hoje em dia seria tratado com haldol e fluoxetina. Naquele tempo, foi canonizado. Com uma ajudazinha do diabo.
O diabo olhou para aquele homem que professava uma fé acima de qualquer suspeita, e não gostou do que viu. Era definitivamente uma má influência.
– Vai que a moda pega? Pensou. – Vai que as pessoas renunciem aos prazeres e desejos que lhes proporciono e não venham mais a mim? Isso não pode ficar assim.
Começou então a elaborar um plano para desvirtuar Antão. Imaginou que seria moleza seduzi-lo, diante daquela vida áspera. Estudou o cenário, traçou estratégias. Elaborou a missão, visão e valores de sua empreitada. Decidiu que Antão precisava pecar. E nada melhor para isso que desafiá-lo com desejos mundanos. Lúcifer então encomendou a uma empresa de consultoria de imagem uma lista de pecados para usar contra o Antão. Foram-lhe apresentados sete cenários possíveis.
De cara Lúcifer descartou a preguiça, a avareza e a inveja. Não funcionariam. Começou então pela gula. Quando Antão jejuava, o diabo lhe colocava à mesa torresmo de barriguinha, feijoada e angu de “munho dágua”. Requeijão da roça, pão de queijo e café coado na hora. Nada. Antão continuava a jejuar e se deliciar com seus gafanhotos e tanajuras.
Revoltado, o diabo resolveu tentar a luxúria. Oferecia a Antão a visão de mulheres nuas, que se lhe insinuavam em sonhos e também quando acordado. Povoavam sua caverna e sua mente. Quando olhava para o Cristo pregado na cruz, era uma linda mulher que enxergava. Mas Antão continuava firme, impassível. Nem uma fresta de desejo escapava pelo seu olhar devoto.
O diabo começou a se exasperar. Restava tentar a ira, sentimento que no momento experimentava e que conhecia tão bem. Convocou uma legião de demônios para darem surras no anacoreta. Antão era diuturnamente açoitado. Em dias frios, ao caminhar pela caverna, batia o dedinho do pé no pé da cama, a unha se levantava. Nada. Nem uma imprecação, nem um palavrãozinho.
Antão suportou os tormentos por 80 longos anos. Quando completou 105 anos, o diabo desistiu. Jogou a toalha. Rendeu-se. Aquele homem era incorruptível. Virou as costas e saiu da caverna com as orelhas murchas e o rabo entre as pernas. Desolado. Era a primeira vez que era derrotado. Mas…
Ao perceber que havia triunfado sobre o Mal, Antão se colocou de joelhos e agradeceu a Deus pela sua vitória. E disse, em voz alta:
– Obrigado, Senhor! Agora finalmente eu virei um santo!
E o diabo, que ainda não estava longe, ouviu aquilo com um sorriso indisfarçável. Deu meia volta e voltou à caverna. O orgulho derrotara Antão.
“O orgulho é capaz de seduzir a todos, especialmente àqueles que se consideram humílimos.” Quem nunca…?
Um dia fui chamado para atender uma paciente em casa, que eu ainda não conhecia. Atendimento em domicílio é rotina na prática do geriatra, por motivos óbvios. Muitos Maomés não conseguem ir à montanha.
A irmã me recebeu à porta e foi logo se explicando: a paciente era muito agitada, agressiva até. Seria melhor que conversássemos sem a presença dela. Até aqui, nada de muito estranho. Como seria a primeira consulta, fui conduzindo a anamnese com a irmã, que me informava com precisão e riqueza de detalhes. A paciente, Dona Arlinda, era portadora de um distúrbio psiquiátrico desde sempre e fazia uso de “remédios controlados”, mas nos últimos tempos vinha se tornando mais difícil. Recusava alimentação, banho, gritava o tempo todo, xingava muito.
Ao final da anamnese, a irmã me perguntou:
– Então, doutor, o que o senhor acha? Qual medicamento o senhor vai receitar?
Respondi que ainda precisava examinar a Dona Arlinda. Não poderia prescrever somente pelas informações que me foram passadas.
A irmã foi taxativa:
– Não tem jeito, doutor. Ela é muito agitada.
– Não se preocupe, eu estou acostumado, respondi.
– Mas ela xinga e ofende…
– Não me importo, respondi com humildade.
O diabo, que dormia nas profundezas do inferno, levantou as orelhas.
– Doutor, ela bate na gente.
– Minha senhora, eu sei lidar com pacientes assim.
O diabo abriu os olhos e levantou a cabeça.
Fomos para o quarto de D. Arlinda. A cama ficava encostada em um canto, com uma grade protegendo o outro lado. D. Arlinda, ao me ver, já começou a resmungar:
– Vai embora! Sai daqui!!! A irmã me dirigia um olhar apreensivo.
Eu não me dei por vencido. Coloquei-me a uma distância segura, escolhi o tom de voz apropriado e disse:
– Boa noite! Eu sou médico, vim dar uma olhadinha na senhora, tá?
– VÁ EMBORA, NÃO QUERO NADA NÃO!!! Ela respondeu gritando.
A irmã insistiu:
– Doutor, não tem jeito, ela não vai se deixar examinar…
E eu, do alto de minha soberba:
– Deixa comigo…
O diabo ouviu aquilo com um sorriso indisfarçável.
Aproximando-me perigosamente, falei para a paciente:
– Meu nome é Eduardo. Como a senhora se chama?
– EU ME CHAMO APUTAQUEPARIU!!!! EU ME CHAMO VAITOMARNOSEUCU!!!!! E desferiu um tapa no ar, que passou a milímetros do meu rosto!
Tive a impressão de que a cidade inteira ouvia. Devo ter ficado vermelho. Parecia que um fogo subia e queimava minhas orelhas. Constrangido, humilhado e arrependido, eu disse à irmã:
– É, acho que não vai ter jeito…
O diabo gargalhava.
A história de Santo Antão foi adaptada do excepcional livro “Pecar e Perdoar”, de Leandro Karnal. Recomendo a leitura.
O título desta história também foi inspirado em uma palestra do mesmo autor.
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