Sebastião entrou no consultório acompanhado do filho. Aos 83 anos, consultava comigo pela primeira vez. Nascido e criado na roça, tinha uma nobreza inata, já percebida no primeiro contato. Se vestia com uma formalidade simples: um terno muito antigo, mas impecavelmente conservado, botas engraxadas e um chapéu de couro que, pela forma e marcas do tempo, denotava ser um companheiro antigo e fiel. Caminhava com altivez e demonstrava a mesma solenidade até na forma de cumprimentar. Não que fosse pedante ou arrogante. Mas não havia dúvidas de que eu estava diante de alguém diferente do comum das pessoas. Tinha gestos estudados e o hábito de explicar tudo nos mínimos detalhes. Tais características, aliadas ao fato de ser surdo como uma porta, fazia antever uma consulta demorada… Nada que não fizesse parte do meu dia-a-dia.
EM TEMPO: Desde o início da minha vida profissional eu aboli a mesa do meu consultório. Teorias à parte eu queria, diminuindo a separação física, diminuir a barreira que muitas vezes é colocada entre o médico e seu paciente, por soberba de uma parte e uma certa vergonha de outra. No caso do Sr. Sebastião, a ausência da mesa permitia uma aproximação essencial para a condução da consulta. Eu coloquei a minha cadeira ao lado da dele, de forma que podia conversar diretamente, sem intermédio do filho.
Entre perguntas gritadas ao ouvido e respostas estudadas, a consulta seguia no ritmo antecipado: como um carro viajando por uma estrada esburacada. Não embalava, ia avançando de forma sofrível. Cada aceleração era imediatamente seguida por mais uma freada. Pára, engata a primeira marcha, acelera novamente. Intermitente. Interminável. Por ser primeira consulta e por serem 83 anos, as queixas eram muitas. A surdez contribuía para reduzir a velocidade. Essa estrada prometia ser longa…
Sebastião tinha um jeito todo especial de responder. Tentava usar palavras que julgava mais adequadas, elaboradas, evitando termos chulos. Falava em palpitações, constipação e lombalgia. Assim como muita gente usa roupas “domingueiras” para ir à missa, ou para ocasiões especiais, Sebastião se vestia de um linguajar rebuscado, para visitar o médico. Eventualmente derrapava em alguma curva. Quando lhe perguntei se porventura tinha doença de Chagas, foi categórico: – Tenho não doutor. Meu “Machado de Assis” deu negativo… (se referindo ao exame de Machado Guerreiro, então utilizado para diagnóstico da doença de Chagas). Tive que me conter para não rir, pois temia ser indelicado. Nem sempre eu consigo manter a formalidade em situações assim. Respirei fundo e segui em frente.
Quando finalmente terminamos a conversa, eu já tinha extrapolado em muito o tempo reservado para a consulta. Chamei o Sr. Sebastião para a sala de exame. Obviamente gritando:
– SEBASTIÃO, VAMOS ALI PARA OUTRA SALA, PARA EU TE EXAMINAR!!!
Ele baixou os olhos e pela primeira vez me pareceu envergonhado:
– Doutor, tem mais um problema, que eu ainda não te falei…
(Ai, meu deus… eu achei que já havíamos terminado…)
– FICA À VONTADE, TIÃO! O QUE É QUE VOCÊ QUER FALAR?
– É que nos últimos dias eu tenho sentido uma dor no crânio…
De repente o filho, até então calado, entrou na conversa e falou:
– Doutor, eu nunca ouvi meu pai falar em crânio. Eu acho que ele não sabe do que está falando… (pôde falar em tom de voz normal, pois o pai não escutaria).
Voltei para o Sr. Sebastião:
– TIÃO, O SENHOR TÁ COM DOR ONDE?
– Dor no crânio, doutor.
– ÔH SEU TIÃO… CRÂNIO É CABEÇA!!! VOCÊ ESTÁ COM DOR NA CABEÇA??
– Ah, não!!! Não é isso… Fez uma pausa e, meio envergonhado, meio sorridente, meio desconcertado falou:
– Então como é que se chama a PISTOLA?
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK (dessa vez não consegui me conter)
– UAI, SEBASTIÃO, SE CHAMA PISTOLA, MESMO!!!
E ele, como para se justificar:
– É, porque nome feio eu sei um tanto….
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