(Classificação indicativa – 18 anos)
Comunicação. Como é difícil!! Há duas semanas eu contei o caso do cabide, ocorrido por um paciente não ter entendido o que eu lhe havia dito. Mas não é um problema exclusivo de pacientes. Nós, médicos, podemos nos colocar em situações muito desconfortáveis e extremamente constrangedoras por também não entender o que nos é dito…
Dona Euflozina tinha exatos cem anos. Vivia acamada, como consequência de uma fratura de fêmur. Completou um século vencendo duas estatísticas: superou a expectativa média de vida dos brasileiros e superou a crença geral dos mineiros, de que velho morre de três “Q”s: queda, coice e caganeira (lista esta, aliás, revista e ampliada por meu amigo e ídolo Dr. Giovanni, que acrescentou caduquice e catarreira…) Não morreu da queda e a caduquice não ousava lhe ameaçar. Tinha uma mente ativa, um raciocínio rápido e um humor invejável. Com o passar do tempo foi perdendo o filtro, de forma que os pensamentos lhe escorriam direto do cérebro para a língua, sem fazer alfândega. Nossas consultas eram sempre saborosas.
Um dia fui chamado para avaliar Dona Euflozina. Por telefone a filha me relatava que a paciente estava bem, mas tinha começado a ter alucinações. Dizia que um homem desconhecido a visitava no quarto, com sua esposa e filhos.
Lá fui eu, na esperança de não me deparar com nenhum quadro mais grave. De fato a paciente me pareceu muito bem. Conversamos amenidades, falamos do tempo, de como ela havia quebrado o fêmur e superado a cirurgia, sem que eu percebesse nenhum traço delirante. Então fui dirigindo a entrevista para possíveis causas das tais alucinações. A paciente não se queixava de nada. Realizei um exame bem detalhado, sem nenhuma alteração evidente. Confesso que comecei a pensar que a filha é quem estava delirando.
Resolvi então provocar. Perguntei à D. Euflozina se nos últimos dias acontecera algo diferente, algo fora da rotina… alguma visita inesperada…
Bingo! Era o “clic” que faltava. Ela me respondeu:
– Uai… teve só um homem que entrou aqui no quarto e ficou sentado ali, nos pés da cama…
– Um homem? Como assim? Era algum parente seu? Alguém conhecido? Perguntei.
– Não, eu não o conheço. Ele veio com a família, todos muito pobres, as crianças muito magras…
– Mas o que ele falou com você? (comecei a achar minhas perguntas sem sentido, tentando explorar uma alucinação não menos desarrazoada).
– Não falou nada, só ficou ali parado, com a lata na mão.
Eu estava sentado em uma cadeira ao lado da cama. Atrás de mim, duas filhas conversavam, prestando pouca atenção ao desenrolar da consulta. Eu Me virei com um olhar que pedia socorro, mas elas não notaram. Voltei, completamente perdido:
– Como ele era?
– Ah, era assim, muito magro. Estavam passando fome.
– Dona Euflozina, mas o que esse homem veio fazer aqui no seu quarto, então?
Com o semblante mais angelical e inocente do mundo, ela me respondeu:
– Ele veio comerucú!!!! E emendou de bate-pronto: – O senhor já ouviu falar em comerucú???
Eu não sabia o que responder… Gaguejando, só consegui dizer:
– Uai, já ouvi falar…
Comecei a suar frio. Olhei pra trás. As filhas interromperam a conversa e disseram da forma mais blasé do mundo: – Viu doutor? Desde ontem ela está falando essas coisas… Como se estivessem comentando o casamento do príncipe da Inglaterra ou o capítulo de ontem da novela.
COMO ASSIM?? Agora é normal uma velhinha bonitinha, toda religiosa, uma vozinha que podia ser a minha vó, falando essas coisas??? E as filhas, que já estavam quase na casa dos 80 anos, que poderiam ser minha mãe, não se espantavam??
Calma Eduardo, respira fundo. Há de ter uma explicação lógica. Provavelmente você está tendo um pesadelo e vai acordar suando daqui a pouco. Ou está em um mundo paralelo, uma realidade invertida, enfim, algo que possa ser facilmente explicado… Não é o que você está pensando…
Firmei o corpo, sacudi a poeira e voltei à cena. Decidi que a primeira coisa a se fazer era repetir a pergunta. Claro que eu estava surtando. Será que isso pega?
– Dona Euflozina, por favor me fala de novo: o que esse homem veio fazer aqui?
– Comerucú, já te falei!!
Não havia mais dúvida. O mundo estava virado ao avesso. Eu não sabia mais o que fazer. Comecei a tremer, minha “suadeira” aumentou, eu não sabia como me comportar, onde pôr as mãos, se sorria ou se chorava. Me faltou coragem para voltar a conversar com as filhas. Meu rosto queimava. Vontade de sair correndo!
Bom, mas se não era delírio meu e se eu não podia sair correndo, resolvi entrar na chuva e me encharcar. Enchendo-me de coragem, perguntei:
– Mas me conta como foi isso… (já me arrependendo, ato contínuo, de ter perguntado).
– Uai, ele veio aqui com a esposa e os filhos. Estavam passando fome, então foram lá no Arraial dos Forros (um bairro aqui de Diamantina), onde tem vários pés de urucum. Encheram umas latas , voltaram e ficaram aí, comendo o urucum… Eu nunca tinha ouvido falar que alguém podia comer urucum…
KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK (mais uma risada profana, de imenso alívio)
Comer urucum… Comer URUCUM! COMER URUCUM!!!!!! Claro!!!!! Tinha que haver uma explicação!!! Eu não estava delirando, não estava sonhando, não estava ficando louco. Estava apenas ficando surdo, com uma pitada de alucinação!!! Quase dei um abraço de alívio em Dona Euflozina, que não entendia porque eu ria tanto de uma história tão triste.
Tive que fazer um esforço monumental para tentar despistar meu riso. Afinal, era uma situação extrema: uma família pobre, que para sobreviver precisava comer urucum…
Nunca tive coragem de contar para Dona Euflozina ou para as filhas sobre a minha confusão, que até hoje me faz morrer de rir quando lembro. E toda vez que vejo alguém cozinhando e usando urucum, eu me lembro da Dona Euflozina, da família pobre e da minha mente poluída…
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