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A poética morte de um poeta.

Era o ano de 2.000. Quem mora em Diamantina, ou quem já teve a oportunidade de assistir a uma Vesperata, certamente já ouviu falar do Pe. Celso de Carvalho. Conhecido para além do sacerdócio por sua imensa cultura e por suas trovas, foi eternizado como autor da letra da música “Diamantina em serenata”, que se tornou o hino afetivo da cidade.

Pois bem. Em um fim de semana do mês de setembro, fui solicitado por um colega para acompanhar o tratamento do Padre Celso, que padecia de uma doença pulmonar crônica e fora internado devido à piora de seu quadro respiratório. Eu sempre tivera vontade de conhecê-lo pessoalmente, pois, além de um ser humano iluminado, tinha relações muito próximas com a minha família. Vontades que muitas vezes não passam disso. Não rompem. Não evoluem. Não se concretizam. Amanhã eu faço, amanhã eu vou, semana-que-vem sem falta… procrastinação alimentada por nossa negação em pensar que a vida passa, que as oportunidades passam, que as pessoas morrem. Nossa eterna negação da morte, em nossa eterna ilusão da imortalidade. Negar a morte muitas vezes é vivê-la em vida. Eu nunca procurei o Padre Celso. Até que ele me procurou, na última estrofe de sua vida.

Eu o conheci enfraquecido, doente, cansado, já há muito cego. Mas na mente o mesmo brilho. Tivemos oportunidade de conversar um pouco enquanto o examinava. Falamos de minha família, de histórias compartilhadas, da profissão médica, de astronomia. Ele estava muito grave e havia muito pouco a fazer para tentar reverter o quadro. Ajustei a medicação para deixá-lo o mais confortável possível. À noite, voltei à Santa Casa para reavaliar seu quadro clínico, que se agravara de forma importante. Padre Celso já não estava tão alerta e respirava com mais dificuldade. Naquele já longínquo ano de 2.000, a Santa Casa ainda não contava com CTI e, dia-sim-dia-não, não havia a presença de nenhum médico durante o período noturno. Era sábado. Dia de vesperata.

Desci para o centro da cidade com o coração apertado, para acompanhar, pela enésima vez, o famoso concerto. Em determinado momento, a vesperata já se encaminhando para o seu final, meu celular tocou. Era da Santa Casa, informando que o paciente agonizava.

Como meu carro ficou estacionado em local muito distante, saí correndo a pé, contornando a catedral e subindo a Rua Macau de Cima. Cheguei à Santa Casa – que já havia fechado sua pesada porta de entrada – e toquei a campainha. A rua estava completamente vazia e silenciosa. Enquanto aguardava alguém me atender, vivi alguns segundos de intensa paz e calmaria: a rua em silêncio, o céu estrelado, o resto do frio de setembro. Os únicos sons que eu ouvia eram os batimentos do meu coração, pelo esforço da corrida, e a música executada pelas bandas de música, na Quitanda. Levei alguns segundos para identificar a música, mas ao fazê-lo, fui tomado por uma sensação que não consigo descrever em palavras. Pelas “ruas serpeantes” subiam, “ávidas de estrelas”, as notas da música “Diamantina em Serenata”. Não pude segurar minhas lágrimas.

A porta se abriu e fui correndo ao quarto do Padre Celso. Ao passar pelo Jardim interno, que naquela época era parte da Clínica Médica, percebi que os sons ali eram de pessoas conversando, da fonte da Santa jorrando, dos pacientes e suas dores. Absolutamente nenhum som vindo do lado de fora. Cheguei ao quarto e acompanhei os últimos momentos de vida do Padre Celso, que morreu sereno, em paz. Morreu ao som da música que compôs para a cidade que amou.

Eu fui a única pessoa que testemunhou os dois lados. Do lado de fora, do lado da vida, do lado da vesperata, somente eu sabia que o Padre Celso estava morrendo. Do lado de dentro, do lado da Santa Casa, do lado da morte, somente eu sabia que as bandas tocavam “Diamantina em Serenata”. A vida me mostrando que pode haver poesia na morte. A morte me mostrando toda a beleza da vida. O poeta que morreu compondo seu último verso. Obrigado, Padre Celso de Carvalho.

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