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Autor: Eduardo Orlando

Vó Lourdes

No último ano tornou-se lugar-comum usar o adjetivo “heróis” como forma de definir ou elogiar a atuação dos médicos na pandemia. Até entendo o ponto de vista de quem concorda com a comparação, mas refuto. Segundo o dicionário Aurélio, “herói” pode ter várias definições. Entre elas:

Nome dado pelos gregos aos grandes homens divinizados.Aquele que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra.[Mitologia] Quem é filho de um deus e um humano; semideus.Pessoa que se destaca em relação aos demais.Quem é capaz de suportar situações adversas sem se abater.

Em que pese alguns poucos profissionais se sentirem ofendidos com o rebaixamento a “semideuses”, a imensa maioria não se considera assim. E não se sente confortável, na luta que trava contra a COVID-19, em ser “pessoa que se destaca em relação aos demais”. A luta é coletiva e ninguém consegue nada sozinho.

Segundo Millôr, “Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir”. Talvez seja uma definição mais próxima à realidade. Ao se decidir pela medicina – e por extensão às outras áreas da saúde – o médico já sabe que vai enfrentar trabalho desgastante, alto nível de stress, riscos de se contrair doenças, etc. Não é heroísmo, é compromisso. É ética. É compaixão. É entender que se optou pela vida e não se pode fugir desta opção. Quem entra na chuva…

Mas não é sobre pandemia nem deuses que quero falar. Quero me concentrar na definição que diz que herói é “quem é capaz de suportar situações adversas sem se abater”.

Um dia, uma tia, ao me ver doente, soltou a pérola: – Uai, médico também adoece? Muita gente pensa assim. Que o médico não adoece, não sofre, não sente; que não tem que suportar a dor da dúvida, a angústia de tomar decisões que podem definir entre a vida e a morte do paciente. Como se fôssemos máquinas. Na verdade, toda decisão médica é uma escolha entre duas ou mais opções. Se for operado, o paciente pode ser salvo; ou pode morrer, justamente por ter sido operado. Um medicamento pode contribuir para a melhora do quadro clínico, ou pode causar reações adversas muitas vezes mais graves que a própria doença. Cada decisão, cada escolha é colocada numa balança. Aliás, sugiro que a balança seja retirada como símbolo da justiça – que não a tem usado muito – e incorporada como símbolo da medicina. Risco x benefício. Claro que a ciência suaviza o peso da maioria das decisões. Ajuda a definir as melhores condutas, as maiores chances de sucesso, ou o que não deve ser feito. Tanto mais confiáveis quanto melhores forem os estudos clínicos. Haja estudo!

Situações há, entretanto, que não encontram estudos científicos para norteá-las. Situações onde a decisão deve se basear em experiência, bom-senso, compaixão. Provavelmente são as mais difíceis, e talvez as mais necessárias nos dias atuais.

OUTRAS HISTÓRIAS: Meu pé esquerdo.

Minha Vó Lourdes. Quem a conheceu, certamente se lembra. Personalidade forte, guerreira, matriarca. Como se diz por aqui: mandava em todos, de cara prá trás. Criou filhos próprios e outros tantos que também se tornaram filhos. Tinha seus tantos defeitos e suas muitas qualidades. Devota sem ser doutrinária; conservadora e surpreendentemente tolerante com as mudanças nos costumes. Perdeu filhos, suportou a dor e chorou sozinha todos os dias. Para se ter uma ideia do seu jeito de ver a vida: aos 94 anos, em uma conversa nos encontros de família, disse: – Meu medo é, quando ficar velha, ficar dando trabalho pros outros… Se você já leu “Cem anos de solidão”, já a conheceu. Era a Úrsula Iguarán.

Nós tínhamos uma ligação especial. Ela tinha um enorme orgulho do primeiro neto médico; eu tinha um enorme carinho pela sua história, pela proximidade que sempre tivemos, por ser a última dos meus avós ainda viva.

Em geral os médicos evitam tratar de familiares. A explicação é que, em situações que exijam uma decisão técnica, o lado emocional pode ofuscar a razão. No caso de minha Vó Lourdes não foi assim. Eu logo assumi o controle de seu diabetes, sua hipertensão e da maioria dos problemas que surgiam com o passar dos anos. Minha presença lhe trazia tanta segurança que chegamos ao ponto de, quando eu viajava de férias, ter que fazê-lo escondido, pois a simples consciência de minha ausência já começava a deixá-la ansiosa. Se ela estava com algum desconforto, ao me ver seu rosto se iluminava, seus olhos brilhavam e ela logo dizia: – Agora eu melhoro, “meu” médico chegou. O pronome possessivo traduzia cumplicidade e confiança irrestritas.

Tinha um medo que a atormentava, motivado pela longa história de diabetes: o de ter alguma parte do corpo amputada. Dizia que não queria chegar na presença de Deus “faltando um pedaço”. Por mais de uma vez me fez garantir que eu nunca permitiria que isso acontecesse a ela. Eu respondia: – Vó, não me complica!

Até que em uma manhã me chamaram com urgência: Vó estava passando mal. Quando eu entrei no quarto, não recebi mais o seu sorriso. Seu olhar estava pálido e inexpressivo. Estava confusa, agitada, não falava. Teve um AVC. Foi levada para a Santa Casa e iniciou um ciclo de complicações já tantas vezes acompanhado por mim: imobilização, pneumonia, alimentação por sonda… minha Vozinha morria lentamente.

Dizem que não há nada tão ruim que não possa piorar. Eu já estava vivendo dias de profunda tristeza por ver minha Vó, antes tão lúcida e ativa, naquela situação de completa dependência. Então veio uma gangrena de sua perna. Vó, mesmo inconsciente, gemia e se contorcia de dor o tempo todo. Não havia analgesia que aliviasse seu sofrimento. E eu ali, tendo que enfrentar o dilema: definir pela amputação da perna, para aliviar sua dor, ou respeitar sua vontade manifesta quando ainda estava lúcida e optar pelo tratamento conservador, sabendo que a infecção provavelmente aceleraria o processo de morte? Vontade de sair correndo!!!

(…)

Não, médico não “é capaz de suportar situações adversas sem se abater”; não é “semideus”. Não “se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias”. Não é herói. Médico é aquele que optou por dedicar sua vida a tentar salvar outras vidas e a consolar o sofrimento do próximo, mesmo que isso custe sua saúde, sua sanidade física e mental, que tome todo seu tempo. E uma vez feita essa opção, sua consciência não lhe permite fugir. Humanamente.

O DELÍRIO DA LUCIDEZ

“O velho é um superlativo”, disse-me certa vez um professor da geriatria, há 27 anos, defendendo o ponto de vista de que o “velho sábio” é um mito que não se sustenta. De fato, ao envelhecer, vamos apurando nossa história e o resultado é diretamente dependente desta. Velhos, nos tornamos superlativos de nós mesmos, quando novos. Um jovem chato será um velho chatíssimo, um jovem querido será um velho queridíssimo. Se cultivar amizades será amicíssimo, amabilíssimo, dulcíssimo e se for ranzinza, egocêntrico e mesquinho, será solitaríssimo, amaríssimo. Só será sábio quem souber entender o que a vida ensinou. A vida nos ensina e o tempo nos destila.

Tenho encontrado os mais variados superlativos ao longo desses quase 30 anos de geriatria. Entre os que mais gosto, sem dúvida, estão os autenticíssimos. Os que não medem as palavras, não se preocupam em agradar, em ser politicamente corretos. Os que desconhecem o ridículo, que riem de si mesmos e não ligam para a opinião alheia. Os que encaram de frente a vida que tiveram e a morte que terão, sem lamentar aquela e sem temer a esta. Vou contar uma história de uma paciente que tinha, entre outras qualidades, a autenticidade como marca. A história é absolutamente real. O nome é fictício.

Dona Francisca tinha 92 anos. Tinha o coração fraquíssimo e os pulmões não lhe faziam inveja. Tinha “as juntas” travadas, mas o espírito livre. Depois de uns dois anos sem aparecer, veio para uma consulta acompanhada de sua filha. Como normalmente acontece, foi uma consulta longa, que extrapolou em muito o período reservado para o atendimento. Os movimentos lentos, a audição pouca e as queixas muitas, pediam mais tempo ao tempo. Quando eu já estava “nos finalmentes”, entregando pedidos de exames e orientando sobre mudanças nos medicamentos, vivi um desses momentos impagáveis da profissão:

FRANCISCA: Pergunta prá ele!

FILHA: Ihh, mãe, não vou perguntar, não.

FRANCISCA: Pergunta!!!

EU (simpaticíssimo): Por favor, perguntem! Qual é a dúvida?

FILHA: É que… bem… Mãe quer saber se ela pode tomar vinho…

EU: Claro que pode.

FILHA: Pode?

FRANCISCA: Não disse?

FILHA: Mas doutor, mesmo com os medicamentos todos que ela toma?

EU: Bem… vocês estão falando em que quantidade de vinho?

FILHA: Ela gosta de tomar um cálice aos domingos.

EU: Então!?… Claro que pode! Não há nenhum problema em beber uma quantidade tão pequena.

FRANCISCA: Obrigada, doutor. (…)

EU: Então, quando os exames ficarem prontos…

FRANCISCA (sussurrando): Pergunta prá ele!

FILHA: Ah, não, mãe. Isso eu não vou perguntar!

FRANCISCA: PERGUNTA!!!EU (atrasadíssimo): Pergunta, pode perguntar!

FILHA: É que… bem… Doutor, mãe quer saber se ela pode fumar maconha!!!!!

EU: KKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKKK. (Não pude contar a gargalhada, ante o absolutamente inusitado). Mas porque você quer fumar maconha?

FRANCISCA: Doutor, dizem que as pessoas que fumam ficam alegres, rindo à toa, leves. Eu já estou velha, doente e não sei quanto tempo de vida ainda tenho… Portanto, não quero morrer sem experimentar…

EU (embarcando): OK… Mas D. Francisca, onde você vai conseguir a maconha?

FRANCISCA: Já planejei tudo. Meu filho é da polícia. Então, já o avisei: – “Quando você der uma batida e apreender alguma quantidade, traz prá mim. E se seu chefe ficar sabendo e quiser te prender, eu digo prá ele: – Antes de dever lealdade à Polícia, ele deve obediência à mãe. Se for prender alguém, que prenda a mim!!”

Tempos depois, perguntei à filha se D. Francisca tinha realizado seu desejo. Me disse que não, que ela havia esquecido o assunto. Nunca me esqueci da forma serena, simples, lúcida e autêntica como ela encarava sua vida. Libérrima. Sapientíssima!!!

A poética morte de um poeta.

Era o ano de 2.000. Quem mora em Diamantina, ou quem já teve a oportunidade de assistir a uma Vesperata, certamente já ouviu falar do Pe. Celso de Carvalho. Conhecido para além do sacerdócio por sua imensa cultura e por suas trovas, foi eternizado como autor da letra da música “Diamantina em serenata”, que se tornou o hino afetivo da cidade.

Pois bem. Em um fim de semana do mês de setembro, fui solicitado por um colega para acompanhar o tratamento do Padre Celso, que padecia de uma doença pulmonar crônica e fora internado devido à piora de seu quadro respiratório. Eu sempre tivera vontade de conhecê-lo pessoalmente, pois, além de um ser humano iluminado, tinha relações muito próximas com a minha família. Vontades que muitas vezes não passam disso. Não rompem. Não evoluem. Não se concretizam. Amanhã eu faço, amanhã eu vou, semana-que-vem sem falta… procrastinação alimentada por nossa negação em pensar que a vida passa, que as oportunidades passam, que as pessoas morrem. Nossa eterna negação da morte, em nossa eterna ilusão da imortalidade. Negar a morte muitas vezes é vivê-la em vida. Eu nunca procurei o Padre Celso. Até que ele me procurou, na última estrofe de sua vida.

Eu o conheci enfraquecido, doente, cansado, já há muito cego. Mas na mente o mesmo brilho. Tivemos oportunidade de conversar um pouco enquanto o examinava. Falamos de minha família, de histórias compartilhadas, da profissão médica, de astronomia. Ele estava muito grave e havia muito pouco a fazer para tentar reverter o quadro. Ajustei a medicação para deixá-lo o mais confortável possível. À noite, voltei à Santa Casa para reavaliar seu quadro clínico, que se agravara de forma importante. Padre Celso já não estava tão alerta e respirava com mais dificuldade. Naquele já longínquo ano de 2.000, a Santa Casa ainda não contava com CTI e, dia-sim-dia-não, não havia a presença de nenhum médico durante o período noturno. Era sábado. Dia de vesperata.

Desci para o centro da cidade com o coração apertado, para acompanhar, pela enésima vez, o famoso concerto. Em determinado momento, a vesperata já se encaminhando para o seu final, meu celular tocou. Era da Santa Casa, informando que o paciente agonizava.

Como meu carro ficou estacionado em local muito distante, saí correndo a pé, contornando a catedral e subindo a Rua Macau de Cima. Cheguei à Santa Casa – que já havia fechado sua pesada porta de entrada – e toquei a campainha. A rua estava completamente vazia e silenciosa. Enquanto aguardava alguém me atender, vivi alguns segundos de intensa paz e calmaria: a rua em silêncio, o céu estrelado, o resto do frio de setembro. Os únicos sons que eu ouvia eram os batimentos do meu coração, pelo esforço da corrida, e a música executada pelas bandas de música, na Quitanda. Levei alguns segundos para identificar a música, mas ao fazê-lo, fui tomado por uma sensação que não consigo descrever em palavras. Pelas “ruas serpeantes” subiam, “ávidas de estrelas”, as notas da música “Diamantina em Serenata”. Não pude segurar minhas lágrimas.

A porta se abriu e fui correndo ao quarto do Padre Celso. Ao passar pelo Jardim interno, que naquela época era parte da Clínica Médica, percebi que os sons ali eram de pessoas conversando, da fonte da Santa jorrando, dos pacientes e suas dores. Absolutamente nenhum som vindo do lado de fora. Cheguei ao quarto e acompanhei os últimos momentos de vida do Padre Celso, que morreu sereno, em paz. Morreu ao som da música que compôs para a cidade que amou.

Eu fui a única pessoa que testemunhou os dois lados. Do lado de fora, do lado da vida, do lado da vesperata, somente eu sabia que o Padre Celso estava morrendo. Do lado de dentro, do lado da Santa Casa, do lado da morte, somente eu sabia que as bandas tocavam “Diamantina em Serenata”. A vida me mostrando que pode haver poesia na morte. A morte me mostrando toda a beleza da vida. O poeta que morreu compondo seu último verso. Obrigado, Padre Celso de Carvalho.