No último ano tornou-se lugar-comum usar o adjetivo “heróis” como forma de definir ou elogiar a atuação dos médicos na pandemia. Até entendo o ponto de vista de quem concorda com a comparação, mas refuto. Segundo o dicionário Aurélio, “herói” pode ter várias definições. Entre elas:
Nome dado pelos gregos aos grandes homens divinizados.Aquele que se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias, principalmente por feitos brilhantes durante a guerra.[Mitologia] Quem é filho de um deus e um humano; semideus.Pessoa que se destaca em relação aos demais.Quem é capaz de suportar situações adversas sem se abater.
Em que pese alguns poucos profissionais se sentirem ofendidos com o rebaixamento a “semideuses”, a imensa maioria não se considera assim. E não se sente confortável, na luta que trava contra a COVID-19, em ser “pessoa que se destaca em relação aos demais”. A luta é coletiva e ninguém consegue nada sozinho.
Segundo Millôr, “Chama-se de herói o cara que não teve tempo de fugir”. Talvez seja uma definição mais próxima à realidade. Ao se decidir pela medicina – e por extensão às outras áreas da saúde – o médico já sabe que vai enfrentar trabalho desgastante, alto nível de stress, riscos de se contrair doenças, etc. Não é heroísmo, é compromisso. É ética. É compaixão. É entender que se optou pela vida e não se pode fugir desta opção. Quem entra na chuva…
Mas não é sobre pandemia nem deuses que quero falar. Quero me concentrar na definição que diz que herói é “quem é capaz de suportar situações adversas sem se abater”.
Um dia, uma tia, ao me ver doente, soltou a pérola: – Uai, médico também adoece? Muita gente pensa assim. Que o médico não adoece, não sofre, não sente; que não tem que suportar a dor da dúvida, a angústia de tomar decisões que podem definir entre a vida e a morte do paciente. Como se fôssemos máquinas. Na verdade, toda decisão médica é uma escolha entre duas ou mais opções. Se for operado, o paciente pode ser salvo; ou pode morrer, justamente por ter sido operado. Um medicamento pode contribuir para a melhora do quadro clínico, ou pode causar reações adversas muitas vezes mais graves que a própria doença. Cada decisão, cada escolha é colocada numa balança. Aliás, sugiro que a balança seja retirada como símbolo da justiça – que não a tem usado muito – e incorporada como símbolo da medicina. Risco x benefício. Claro que a ciência suaviza o peso da maioria das decisões. Ajuda a definir as melhores condutas, as maiores chances de sucesso, ou o que não deve ser feito. Tanto mais confiáveis quanto melhores forem os estudos clínicos. Haja estudo!
Situações há, entretanto, que não encontram estudos científicos para norteá-las. Situações onde a decisão deve se basear em experiência, bom-senso, compaixão. Provavelmente são as mais difíceis, e talvez as mais necessárias nos dias atuais.
OUTRAS HISTÓRIAS: Meu pé esquerdo.
Minha Vó Lourdes. Quem a conheceu, certamente se lembra. Personalidade forte, guerreira, matriarca. Como se diz por aqui: mandava em todos, de cara prá trás. Criou filhos próprios e outros tantos que também se tornaram filhos. Tinha seus tantos defeitos e suas muitas qualidades. Devota sem ser doutrinária; conservadora e surpreendentemente tolerante com as mudanças nos costumes. Perdeu filhos, suportou a dor e chorou sozinha todos os dias. Para se ter uma ideia do seu jeito de ver a vida: aos 94 anos, em uma conversa nos encontros de família, disse: – Meu medo é, quando ficar velha, ficar dando trabalho pros outros… Se você já leu “Cem anos de solidão”, já a conheceu. Era a Úrsula Iguarán.
Nós tínhamos uma ligação especial. Ela tinha um enorme orgulho do primeiro neto médico; eu tinha um enorme carinho pela sua história, pela proximidade que sempre tivemos, por ser a última dos meus avós ainda viva.
Em geral os médicos evitam tratar de familiares. A explicação é que, em situações que exijam uma decisão técnica, o lado emocional pode ofuscar a razão. No caso de minha Vó Lourdes não foi assim. Eu logo assumi o controle de seu diabetes, sua hipertensão e da maioria dos problemas que surgiam com o passar dos anos. Minha presença lhe trazia tanta segurança que chegamos ao ponto de, quando eu viajava de férias, ter que fazê-lo escondido, pois a simples consciência de minha ausência já começava a deixá-la ansiosa. Se ela estava com algum desconforto, ao me ver seu rosto se iluminava, seus olhos brilhavam e ela logo dizia: – Agora eu melhoro, “meu” médico chegou. O pronome possessivo traduzia cumplicidade e confiança irrestritas.
Tinha um medo que a atormentava, motivado pela longa história de diabetes: o de ter alguma parte do corpo amputada. Dizia que não queria chegar na presença de Deus “faltando um pedaço”. Por mais de uma vez me fez garantir que eu nunca permitiria que isso acontecesse a ela. Eu respondia: – Vó, não me complica!
Até que em uma manhã me chamaram com urgência: Vó estava passando mal. Quando eu entrei no quarto, não recebi mais o seu sorriso. Seu olhar estava pálido e inexpressivo. Estava confusa, agitada, não falava. Teve um AVC. Foi levada para a Santa Casa e iniciou um ciclo de complicações já tantas vezes acompanhado por mim: imobilização, pneumonia, alimentação por sonda… minha Vozinha morria lentamente.
Dizem que não há nada tão ruim que não possa piorar. Eu já estava vivendo dias de profunda tristeza por ver minha Vó, antes tão lúcida e ativa, naquela situação de completa dependência. Então veio uma gangrena de sua perna. Vó, mesmo inconsciente, gemia e se contorcia de dor o tempo todo. Não havia analgesia que aliviasse seu sofrimento. E eu ali, tendo que enfrentar o dilema: definir pela amputação da perna, para aliviar sua dor, ou respeitar sua vontade manifesta quando ainda estava lúcida e optar pelo tratamento conservador, sabendo que a infecção provavelmente aceleraria o processo de morte? Vontade de sair correndo!!!
(…)
Não, médico não “é capaz de suportar situações adversas sem se abater”; não é “semideus”. Não “se distingue por seu valor ou por suas ações extraordinárias”. Não é herói. Médico é aquele que optou por dedicar sua vida a tentar salvar outras vidas e a consolar o sofrimento do próximo, mesmo que isso custe sua saúde, sua sanidade física e mental, que tome todo seu tempo. E uma vez feita essa opção, sua consciência não lhe permite fugir. Humanamente.