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O CABIDE

A história do cabide é a mãe de todas as histórias. O pai de todos os “causos” do consultório. Não foi o primeiro, talvez nem seja o mais engraçado, mas seguramente é uma história surreal. É aquela que tive que repetir inúmeras vezes, em reuniões de família, de amigos, em viagens, etc. Os mais chegados acho que não aguentam mais quando alguém diz:

– Conta a história do cabide!!!

Sempre causou uma sensação de incredulidade em quem a ouvia. Tanto que eu mesmo quase cheguei a duvidar de sua veracidade. Quando isso acontecia, eu voltava à “cena do crime” e constatava que, sim, aconteceu. Havia provas materiais… Definitivamente, o consultório médico é uma realidade paralela, é uma outra dimensão. Digo, em agradecimento àqueles que ouviram e creram, que se não tivesse acontecido comigo, eu ouviria, mas não teria crido.

Tem a ver com comunicação. Não vou dissertar sobre o tema, até porque não tenho autoridade para fazê-lo. Comunicar é fundamental, todo mundo sabe. Na prática médica é vital. Mas existe um abismo, por vezes intransponível, entre o que eu falo e o que você ouve. Entre a minha ideia e a sua compreensão. E vice-versa. O médico vai tentando criar maneiras para transpor esse abismo. Cria pontes improváveis: muda o jeito de falar, se esforça para não abusar do mediquês; tenta mostrar seriedade ou tenta o humor; faz comparações esdrúxulas, gesticula… Nem sempre funciona. Em muitas situações, não basta mudar o jeito de falar. É preciso, antes de tudo, mudar o jeito de ouvir.

Parágrafo incidental: atuo como preceptor da residência de Clínica Médica na Santa Casa de Caridade de Diamantina e nessa tarefa, sempre tento fazer ver aos residentes a importância da anamnese (a entrevista médica) para um diagnóstico preciso. É uma das etapas mais importantes – senão a mais importante – da consulta, e a mais difícil. Exige paciência, disciplina, foco, conhecimento técnico, respeito, anos e mais anos de prática. Nunca se atinge o ideal, mas a meta é melhorar a cada dia. E a cada dia está mais difícil convencer os novos médicos de que uma boa anamnese geralmente vale mais que mil exames complementares.

Mas voltemos ao consultório.

José era um paciente nos seus vinte e poucos anos, morador do interior da comunidade de Mão Torta, distrito do Galinheiro, que é distrito de Diamantina. De uma timidez absurda, desafiava minha pretensa habilidade em estabelecer uma boa conversa. Olhar fugidio, na maior parte do tempo fixo no chão. Esfregava as mãos e suava. Por mais que eu tentasse, a consulta se arrastava entre perguntas estudadas e respostas curtas, monossilábicas: Diálogos do tipo:

Eu: – José, a sua dor na barriga, quando você come, melhora ou piora?

José: – Isso

Eu: – Me desculpa, não entendi: a dor melhora ou piora depois que você come?

José: – É, assim mesmo!!

Fui ficando constrangido e angustiado. Como não conseguia colher quase nenhuma informação útil, apostei todas as minhas fichas no exame físico.

(…)

Antes de continuar, é preciso que se crie uma imagem da distribuição espacial dos móveis no consultório. São dois ambientes separados: no primeiro eu recebo os pacientes e faço a anamnese; no segundo ambiente é feito o exame físico. Visualize: ao entrar na sala de exames a maca está à esquerda. À direita tem uma parede onde ficam dois cabides, para o paciente pendurar a roupa; e na parede do fundo fica uma balança.

Chamo então o José para o exame. Na minha rotina, sempre começo pela balança.

Tira os sapatos e sobe na balança, por favor.

Fica de costas para a balança, apruma bem a coluna…

Agora você pode descer da balança, tira a camisa e pendura no cabide, por favor.

Foram essas as palavras. Bem ditas. Alto e bom tom. Fico por alguns segundos memorizando os valores de peso e altura enquanto volto a balança para a posição neutra. Me viro para continuar o exame, e ……

kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

Não consegui conter uma gargalhada profana. José, obedecendo cegamente ao meu pedido, tirou a camisa, colocou-a sobre a maca e SE PENDUROU NO CABIDE!!!! “Tira a camisa e pendura no cabide…” Não foi o que eu pedi? Lá estava ele, pernas encolhidas, num esforço hercúleo, num equilíbrio improvável entre não encostar os pés no chão e não arrancar o cabide da parede!!!!!

Minha gargalhada exorcizou toda a angústia que eu sentia pela consulta travada. O José logo entendeu o que havia feito, se permitiu contagiar e começou a gargalhar também. A partir daí tudo mudou. Eu e o José relaxamos, ele ficou mais falante, eu fiquei menos tenso e pudemos finalmente conversar como não tínhamos conseguido fazer até então.

Mais que pelo improvável da cena, essa história sempre me causou espanto pela simplicidade e humildade do paciente José. Pela obediência cega a uma solicitação – pelo menos como foi entendida – completamente desarrazoada. Totalmente descabida essa história do cabide! O imponderável atuou para encurtar nossa distância. As gargalhadas criaram a ponte que faltava. O abismo foi finalmente vencido.

“Travessias.”

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Um Comentário

  1. Juliana da Costa Becker Juliana da Costa Becker

    Euzinha lendo suas histórias ao amamentar o Matteo… ao ler o início da história, me recordei do final dela e não pude conter a gargalhada! Meu filho, que bebia seu leite em paz, parou de sugar e me olhou com espanto! E de repente , ele começou a imitar minhas gargalhadas, no estilo baby! Ele ria e esperava eu rir, aí ele ria de novo e me observava se eu ia rir novamente… e assim ficamos uns 5 minutos!
    Du, eu não sabia se ria do seu paciente ou do Matteo achando que eu estava rindo pra ele!
    Muuuuuito boa a história do cabide!!!
    Já impaciente para ler a próxima história!
    Beijos Ju cunhadinha

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